Desafios na Educação do Campo: Estudantes encontram barreiras para continuar os estudos
- Alexandre Santos

- 4 de ago. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 21 de ago. de 2025
Estudantes que residem na zona rural enfrentam obstáculos para permanecer no ambiente escolar

Seguindo a BA 210, sentido Curaçá–BA, a 33,8 km da cidade de Juazeiro, está localizado o Distrito de Maniçoba, com aproximadamente 18 mil habitantes. Na zona rural, há uma abundância de produtos derivados da fruticultura irrigada e agricultura familiar, sendo a manga o cultivo principal realizado pelos produtores.
Na comunidade existem escolas de ensino fundamental e uma única escola de ensino médio. Foi nela que Andréa de Deus Santos, de 24 anos, cursou todo o ensino médio e superou diversos desafios até conquistar o tão sonhado diploma de conclusão do ensino médio e uma vaga na universidade pública.
Entre os desafios mais comuns enfrentados por Andréa, estão a falta de professores e um currículo acadêmico adequado para a demanda dos vestibulares. “Sempre foi uma educação muito carente, o ensino fundamental ainda foi melhor porque eu aprendi a ler muito rápido e tinha bons professores. Já no ensino médio, infelizmente por ser parte do Estado, foi mais difícil, a escola não tinha muitos professores e em algumas matérias eu não tive nem aula direito, nunca foi uma educação que me influenciasse a querer mais, era ensinado apenas o básico”, relatou Andréa, que atualmente é estudante de pedagogia.
Ao ingressar na universidade pública, Andréa encontrou alguns obstáculos para se ajustar ao meio acadêmico, e um deles foi a dificuldade de participar das discussões que ocorrem em sala de aula. “Eu tive acesso a uma pedagogia tradicional. Então, nunca teve incentivo para que o aluno falasse em sala de aula, a gente apenas ouvia os professores, os alunos não tinham esse espaço em sala de aula. Agora que estou na universidade, eu tenho e sinto dificuldade de expressar minha opinião dentro da sala e ainda não consegui desenvolver esse hábito de me comunicar”, explicou a universitária que pretende mudar esse cenário após concluir a graduação.
A escola que Andréa estudou está inserida no contexto da educação do campo, que se tornou um símbolo de luta e resistência dos camponeses junto aos movimentos sociais, em busca de políticas que valorizem sua cultura e identidade, destinada a pessoas que residem no campo. Assim, dentro das demandas do cenário rural, inclui-se não apenas a educação do campo (como a concepção e estruturação do seu papel social no meio rural, desenvolvida em conjunto com os habitantes locais), mas também a educação no campo (como a escola localizada no território camponês).
“A educação do campo se constitui como uma perspectiva educativa que ultrapassa a escola, mas que também compreende”, explica a doutora em educação, Ivânia Paula Freitas. “É um processo educativo formativo que se dá nos movimentos sociais e na luta camponesa, quando os movimentos se levantam para se opor ao modelo de estado ou modelo de sociedade para reivindicar políticas públicas, se entendendo como sujeitos de direito”, completou.
Conforme o Censo de 2018, o Brasil possuía 56.954 escolas do campo. Essas escolas localizadas em áreas rurais lutam diariamente para oferecer um ensino de qualidade para a população. Essas instituições, frequentemente esquecidas, enfrentam uma série de desafios que vão desde a falta de infraestrutura adequada até a ausência de meios de transporte apropriados. Além disso, a falta de professores qualificados torna a tarefa de educar ainda mais árdua, deixando claro que oferecer uma educação de qualidade nessas regiões se torna uma batalha constante.
Com todos esses obstáculos impostos à educação no campo, o número de fechamento das escolas também se torna uma problemática, com base nos dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) sobre o número de estabelecimentos de ensino na Educação Básica, foram fechadas aproximadamente 80 mil escolas no campo brasileiro entre os anos de 1997 e 2018.
O professor de história José Roberto de Brito Silva, de 46 anos, atua como professor no distrito de Maniçoba há 12 anos, descreve os desafios que encara diariamente ao lecionar no interior, desde a saída de casa até o momento de permanecer no local. “O transporte não é de qualidade, a gente tem muita dificuldade para chegar até aqui. Nos professores não possuímos direito à alimentação na instituição, a escola sofre com a falta de água, além da falta de material didático para os alunos”, relatou o professor.

Abandono e Evasão Escolar em Áreas Rurais

Nas áreas rurais, muitos jovens se veem obrigados a largar a escola antes de concluírem seus estudos. A necessidade de trabalhar para auxiliar a família ou cumprir outras obrigações frequentemente os impede de continuar sua formação educativa.
Segundo o pesquisador Elias Márcio Tavares, a evasão escolar ocorre geralmente quando os alunos estão nos anos finais do ensino fundamental ou no ano inicial do Ensino médio, isso se alinha com outro aspecto socioeconômico: a urgência de começar a atuar em uma carreira, muitas vezes informalmente e não conseguem conciliar os horários de estudo e de trabalho.
Na pandemia da COVID-19, o cenário de evasão tornou-se ainda mais recorrente, onde cerca de 244 mil crianças e adolescentes estavam fora da escola no segundo trimestre de 2021. Um aumento de 171% em comparação a 2019, quando 90 mil crianças estavam fora da escola, mostra o relatório da organização Todos Pela Educação de 2021.
Com a suspensão das atividades presenciais, as escolas passaram a adotar uma nova forma de ensino, o ensino remoto emergencial. As aulas aconteciam via-internet de maneira síncronas (ocorrem em tempo real, permitindo que o professor e o aluno interajam ao mesmo tempo, em um espaço virtual) e assíncronas (ocorrem quando o educador disponibiliza recursos e atividades em plataformas digitais, possibilitando que os alunos acessem o conteúdo a qualquer momento), impossibilitando o acesso para alguns estudantes que não possuíam aparelhos tecnológicos.
Edmerson Reis, especialista em educação, afirma que durante a pandemia da COVID-19, o não acesso à tecnologia foi um dos principais fatores que contribuiu para que o número de evasão escolar aumentasse, já que as escolas não estavam preparadas para essa situação. “Ao se fazer a opção do ensino remoto, acontece que muitos dos nossos estudantes e professores não dominavam a tecnologia e muitos dos estudantes não tinham acesso à tecnologia, então ele fica no processo, de certa forma, alijado”, informou.
José da Silva Souza, residente do projeto Maniçoba, iniciou sua rotina de trabalho ainda criança, aos 10 anos de idade, para ajudar seu pai a arcar com as despesas de casa e sustentar seus irmãos mais novos. Ele abandonou os estudos no 5º ano do ensino fundamental, desde então não teve mais a oportunidade de voltar para a sala de aula.
“Na época não tinha transporte e tínhamos que ir a pé, chegava tarde em casa e ia trabalhar, começamos perdendo aula até que paramos de estudar. Hoje, a dificuldade veio porque sem estudo é difícil de conseguir alguma coisa”, explicou.
Por mais que sua mãe o incentivasse a não interromper os estudos, José não teve o privilégio de seguir esse conselho e não conseguiu conciliar os estudos e o trabalho. “Hoje, me sinto prejudicado por não concluir o ensino médio, hoje em dia no mercado de trabalho, para conseguir um emprego bom tem que ter um estudo bem avançado, senão não consegue. Só na roça mesmo, que não exige muita experiência”, lamentou o agricultor.

O principal motivo para a evasão desses estudantes é a condição socioeconômica. Atualmente, existem algumas políticas públicas que contribuem para a permanência desses estudantes de baixa renda na instituição de ensino e isso contribui positivamente para a diminuição do número de evasão.
“Atualmente, tem inúmeras políticas que vão fazer esse combate à evasão, uma delas é a vinculação da presença dos estudantes nas escolas há o acesso ao Bolsa Família, alguns programas de distribuição de renda dessa vinculação diminuíram muito o processo de evasão”, explicou a professora Ivânia Paula Freitas.
Micael Pereira, estudante do nono ano do ensino fundamental II, explicou como o auxílio do bolsa família ajuda a manter as dispersas de casa e o incentiva a frequentar diariamente a escola. “Para mim é muito importante receber o bolsa família, porque é uma renda garantida todo mês, que ajuda a fazer as compras de casa, a comprar os materiais escolares e me incentiva a frequentar mais a escola”, disse.
A trajetória da educação do campo é marcada por desafios, conquistas e superações. A implementação de políticas públicas desempenha um papel crucial na consolidação e fortalecimento da educação na zona rural, o que só é possível graças à persistência dos camponeses e dos movimentos sociais, que batalharam para conquistar os seus direitos enquanto cidadãos.
Por: Alexandre Santos



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