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“Guardiãs da biodiversidade e da agroecologia”: valorizando saberes tradicionais, grupo de trabalhadoras rurais luta por autonomia financeira no semiárido baiano

  • Foto do escritor: Ecoa Rural
    Ecoa Rural
  • 7 de out. de 2025
  • 8 min de leitura

Por meio do empoderamento econômico, mulheres do distrito de Massaroca (BA) aprimoram técnicas de cultivo e manejo de animais e conquistam o protagonismo na comercialização de suas produções.


Por Ariele Lima


A chuva recente transformou a paisagem da caatinga, no semiárido baiano. Saindo da zona urbana de Juazeiro, no norte da Bahia, seguimos rumo ao distrito de Massaroca. De lá, mais alguns quilômetros em estrada de terra nos levam até a comunidade de Canoa onde mulheres trabalhadoras rurais escrevem um novo capítulo de sua história coletiva.


Minha chegada à sede da associação de agricultores da comunidade foi facilitada pela direção de Lourdes Almeida, técnica agrícola nascida na região e profunda conhecedora da história do local. Ao longo do caminho, Lourdinha me conta um pouco da história do lugar. Em meados dos anos 70, a população começou a se organizar para a luta. A base era principalmente a defesa da terra. A população de fundo de pasto precisava de espaço livre para criar seus caprinos. Então surgiram as primeiras associações, mas não foi um caminho fácil. 


“A população começou a abrir os olhos para os currais eleitorais, principalmente em eleições municipais. Parecia que cada vereador tinha um território que comandava. Foi realizado então um comitê das associações da região de Massaroca, com participação ativa das mulheres de aproximadamente dez comunidades, em defesa da terra e contra a venda de votos.”, conta Lourdes.


O distrito de Massaroca é formado majoritariamente por comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto, modos coletivos de uso e gestão da terra que resistem há gerações. Nessas comunidades, o acesso comum aos recursos naturais, como pastagens e áreas de uso coletivo, fortalece os laços comunitários e sustenta práticas agroecológicas adaptadas ao clima da caatinga. Embora não existam dados oficiais atualizados sobre a população e a renda da localidade, um estudo da Embrapa realizado em 1999 estimava cerca de 900 habitantes distribuídos em 160 famílias, o que dá uma dimensão aproximada da organização social do território. Destacam-se, em especial, os cultivos de melancia, mamona e mandioca, além do extrativismo do umbu, atividade tradicional profundamente enraizada na cultura local.


Com o tempo, o fortalecimento das comunidades abriu espaço para novas articulações, incluindo intercâmbios com produtores de outras regiões do Brasil e até de outros países. A valorização da educação gerou a ERUM, Escola Rural de Massaroca que em 2025 completa 30 anos, um marco para a população que sonhava com a formação dos filhos e netos em uma pedagogia contextualizada com o semiárido. Para as famílias da zona rural, o acesso à educação sempre foi através de lutas e mobilizações.


A história contada durante a travessia pelo chão de terra me envolve numa profunda conexão com as raízes desse lugar que se revelam, sobretudo, no trabalho de cuidado e na geração de renda protagonizados pelas mulheres da região.


Um ato profundamente político


Na casa branca de janelas azuis, sede da associação, 16 mulheres iniciam mais um ciclo de formação voltado à autonomia econômica, produção sustentável e fortalecimento de direitos. A atividade faz parte do projeto Empoderamento Econômico das Mulheres Trabalhadoras Rurais, realizado pela Associação Maria Eufrásia Pelletier (AMEP) com apoio da Fundação Internacional Bom Pastor.


Mulheres de diversas comunidades da Massaroca se reúnem para o projeto Empoderamento Econômico das Mulheres Trabalhadoras Rurais. Foto: Ariele Lima
Mulheres de diversas comunidades da Massaroca se reúnem para o projeto Empoderamento Econômico das Mulheres Trabalhadoras Rurais. Foto: Ariele Lima

O projeto aposta na valorização dos saberes locais e no acesso à formação política e ao microcrédito como estratégias para enfrentar as desigualdades estruturais enfrentadas pelas mulheres do campo, que somam mais de 40% da força de trabalho agrícola nos países em desenvolvimento, segundo a ONU. No semiárido baiano, as mulheres desempenham um papel central na agricultura familiar. De acordo com dados do Censo Agropecuário de 2017, aproximadamente 30% dos estabelecimentos agropecuários na Bahia são dirigidos por mulheres .


Por meio de capacitações técnicas, acesso a microcrédito e apoio na organização coletiva, as participantes desenvolvem habilidades para gerir suas próprias iniciativas produtivas, potencializando a geração de renda de forma sustentável. A formação contempla desde práticas agroecológicas até estratégias de comercialização, garantindo que o trabalho rural feminino seja reconhecido como uma atividade econômica legítima e estratégica.


O microcrédito funciona como um banco semente: as mulheres recebem R$ 300 mensais para investir em atividades produtivas e garantir a sustentabilidade econômica de seus empreendimentos. A cada mês, devolvem R$ 60 como forma de retribuição solidária ao fundo coletivo.


Cartaz de regras e lemas da associação dos trabalhadores rurais de Canoa, distrito de Massaroca.                       Foto: Ariele Lima
Cartaz de regras e lemas da associação dos trabalhadores rurais de Canoa, distrito de Massaroca. Foto: Ariele Lima

Ao iniciar o encontro, as mulheres se reúnem ao redor do salão onde estão dispostos ovos, frutas, uma Bíblia e um frasco de alfazema. Após a reza inicial, uma das participantes lê a passagem de Maria de Betânia, mulher que, ao ungir os pés de Jesus com perfume caro, contrariou as normas da época que excluíam mulheres de espaços religiosos.


“Não é um ato menor, e sim profundamente político. O amor sem medida, a subversão da ordem patriarcal e a capacidade das mulheres para atuar como verdadeiras discípulas, sem necessidade de mediação nem permissão”, diz o texto lido por Irmã Neide, que acompanha o grupo há seis anos.


Apesar dos avanços, o caminho da equidade no campo ainda encontra barreiras profundas. Mulheres rurais enfrentam desigualdade de acesso à terra, assistência técnica, crédito e políticas públicas, além da sobrecarga dos cuidados domésticos e familiares. Grande parte do trabalho realizado por elas ainda é informal e invisível nos dados oficiais. A formação aposta na consciência crítica como ponto de partida e na comunhão das mulheres como ponto de acolhimento.


A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) ressalta que, na América Latina, as mulheres dedicam três vezes mais tempo ao trabalho doméstico e cuidados não remunerados do que os homens. Além disso, essa carga é ainda maior nas áreas rurais, onde as mulheres gastam de 3 a 10 horas a mais em tarefas domésticas do que suas pares nas zonas urbanas.


Um dos exemplos de transformação aparece no depoimento de Irene Benecio, de 57 anos, moradora da Comunidade Lagoa do Jacaré.


“Já estou no projeto há mais de dois anos, e para mim foi muito importante. Aproveito muito os espaços de formação e interação com minhas companheiras, ali choramos juntas, nos apoiamos e nos animamos. Com a ajuda do Microcrédito, tenho focado em meus empreendimentos, realizei a construção de meu aprisco dentro do planejado, comprei algumas ovelhas, cabritos, galinhas e ração para os animais.”, relata Irene.


Dona Irene em seu aprisco. Foto: Ana Lúcia Santos
Dona Irene em seu aprisco. Foto: Ana Lúcia Santos

Ao transformar realidades locais, essas iniciativas também se conectam a desafios globais, como a insegurança alimentar e as mudanças climáticas.


Fortalecimento das mulheres rurais como resposta à crise climática


O projeto Empoderamento Econômico das Mulheres Trabalhadoras Rurais em Massaroca integra diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, entre eles a promoção da igualdade de gênero, o combate à fome e o incentivo a práticas agrícolas sustentáveis. É uma das muitas iniciativas que avançam em direção à Agenda 2030, ao fortalecer a autonomia econômica das mulheres rurais e impulsionar a construção de comunidades mais resilientes frente aos desafios climáticos e sociais.


Por décadas, o Semiárido brasileiro foi alvo de políticas pautadas no “combate à seca”, uma abordagem centralizada em ações emergenciais, como carros-pipa e construção de açudes, muitas vezes controladas por elites locais e associadas a práticas clientelistas. Em resposta a esse modelo excludente, ganhou força o paradigma da “convivência com o Semiárido”, que propõe uma ruptura com a ideia de que o clima é inimigo. Ao contrário, essa visão reconhece a riqueza ecológica da caatinga e aposta em soluções sustentáveis, baseadas em saberes tradicionais, tecnologias sociais e práticas adaptadas à realidade local. A convivência não é resignação, mas uma forma de viver com dignidade, aproveitando as potencialidades do território.


“Percebemos que o grande desafio estava em acompanhar essas mulheres a partir das atividades que elas já exercem, sobretudo atividades em seus quintais produtivos, e promover a autonomia econômica dessas mulheres. Fomos percebendo que elas são as grandes guardiãs da biodiversidade e da agroecologia, que mantêm as atividades do campo vivas”, relata Neide.


As práticas agroecológicas articulam o cuidado com a natureza, a valorização dos saberes tradicionais dos agricultores e agricultoras, e a busca pela soberania e segurança alimentar e nutricional. A força para enfrentar os efeitos da crise climática, especialmente os longos períodos de estiagem, está na integração desses elementos: agroecologia, convivência com o Semiárido e fortalecimento da agricultura familiar.


Segundo o relatório “Feminist Climate Justice: A Framework for Action” (ONU, 2023), as mudanças climáticas não apenas intensificam desigualdades de gênero já existentes, como também ameaçam retrocessos nos direitos conquistados por mulheres ao redor do mundo. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2022, mostram que 31% das propriedades rurais são comandadas por mulheres, a quantidade dobrou em duas décadas. 


Essa realidade evidencia que o poder de resistência às crises climáticas, sobretudo os períodos de estiagem, reside na articulação entre agroecologia, convivência com o Semiárido e o fortalecimento da agricultura familiar, majoritariamente conduzida por mulheres. Essa resistência se manifesta em estratégias que valorizam os saberes tradicionais, promovem o uso sustentável dos recursos da caatinga e reforçam a autonomia produtiva e social dessas famílias.


Entre essas mulheres está Ana Lúcia Santos, agricultora familiar, liderança política e coordenadora do projeto. Ana atua como mobilizadora, realizando visitas técnicas às propriedades das participantes para garantir condições dignas de trabalho e o aprimoramento das práticas de manejo com animais e plantas. Sua atuação reforça o papel central das mulheres na promoção da agroecologia e na luta pela justiça socioambiental.


Ao lado de Neide, integrante da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, parceira desde os primeiros passos do projeto durante a pandemia, Ana foi convidada a participar do Jubileu Peregrinos da Esperança, realizado entre os dias 2 e 6 de março, em Roma. Durante cinco dias, elas compartilharam experiências com representantes de organizações de diversos países, em um encontro marcado pela troca de saberes e compromisso com a transformação social e ambiental.


Participação de Ana Lúcia e Neide no Jubileu Peregrinos da Esperança, em Roma.                       Foto: Arquivo pessoal
Participação de Ana Lúcia e Neide no Jubileu Peregrinos da Esperança, em Roma. Foto: Arquivo pessoal

O distrito de Massaroca é formado majoritariamente por comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto, modos coletivos de uso e gestão da terra que resistem há gerações. Nessas comunidades, o acesso comum aos recursos naturais, como pastagens e áreas de uso coletivo, fortalece os laços comunitários e sustenta práticas agroecológicas adaptadas ao clima da caatinga. Essa organização territorial tem sido essencial para a sobrevivência e o protagonismo das mulheres no campo, que seguem reinventando formas de produzir, cuidar e resistir em tempos de crise climática.


Um dos principais desafios enfrentados, como destaca Irmã Neide, está relacionado às condições estruturais das comunidades atendidas. A escassez de água limita significativamente a produção agrícola, que é uma das principais fontes de renda e autonomia das mulheres do campo. Além disso, as estradas em más condições de conservação dificultam o acesso às comunidades, prejudicando o transporte de insumos e a comercialização dos produtos, além de provocar constantes quebras em carros e motos.


Em 2024, Ana Lúcia recebeu o certificado de conformidade orgânica da Rede de Agroecologia Povos da Mata. Foto: Coletivo Enxame
Em 2024, Ana Lúcia recebeu o certificado de conformidade orgânica da Rede de Agroecologia Povos da Mata. Foto: Coletivo Enxame

Empreendedorismo como forma de emancipação


A agricultora Cátia Magalhães, de 44 anos, moradora da comunidade de Canoa e mãe de quatro filhos, é um exemplo de como os processos de formação e o acesso ao microcrédito podem transformar vidas. Sem saber ler e escrever, ela encontrou na organização de mulheres um caminho de autonomia e autoestima.

 “Sou uma mulher agricultora e gosto muito do que faço”, afirma. 


Com o apoio financeiro, reativou seu galinheiro e, atualmente, vende três dúzias de ovos a cada dois dias, além de investir na melhoria de sua horta. Cátia destaca a importância das formações oferecidas pelo projeto, que, segundo ela, têm sido fundamentais para compreender a sustentabilidade, manter uma produção livre de agrotóxicos e reconhecer sua dignidade enquanto mulher do campo: 

“Vou tomando consciência da minha dignidade e o quanto é importante aproveitar esses espaços para fortalecer minha vida, caminhar segura e seguir aprendendo coisas novas”.


Visita técnica das integrantes do projeto à horta de Cátia. Foto: Ana Lúcia Santos
Visita técnica das integrantes do projeto à horta de Cátia. Foto: Ana Lúcia Santos

A criação de uma cooperativa é o próximo passo de um projeto que busca mais do que geração de renda: pretende estruturar um espaço coletivo para troca de saberes, comercialização de produtos e fortalecimento da atuação feminina nos espaços de decisão locais. A proposta ganha ainda mais relevância diante da realidade vivida por milhares de mulheres no campo.


Segundo o relatório Raseam (2025), trabalhadoras rurais ganham, em média, 85,5% do rendimento dos homens no mesmo setor. A informalidade também pesa mais para elas, especialmente para mulheres pretas ou pardas do Norte e Nordeste, onde quase metade está sem carteira assinada. Para muitas, essa condição se soma à vulnerabilidade econômica: quase 70% dos lares chefiados por mulheres pretas ou pardas sobrevivem com até um salário mínimo por pessoa. Nesse contexto, o empreendedorismo solidário desponta como ferramenta de resistência, autonomia e combate às desigualdades no semiárido baiano.


Reportagem premiada em 3º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, na categoria Jornalismo Universitário.










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